Todo pai e toda mãe começa a construir o filho antes de ele existir. Essa imagem é tecida com fios de esperança, memória, medo e desejo, às vezes desde muito antes da gestação.
Quando o filho real nasce e cresce, ele inevitavelmente diverge dessa imagem. A maioria dos pais administra bem essas pequenas divergências. Mas quando a diferença é grande, ou quando a adolescência a torna visível de golpe, algo que poucos nomeiam acontece: um luto.
Luto do filho que seria atleta. Do filho que herdaria o negócio. Do filho que se tornaria próximo, parceiro de conversas profundas. Esses filhos imaginados existiram na mente dos pais com clareza quase real, e quando percebem que não vão acontecer, a dor é genuína.
A psicanálise oferece um conceito útil aqui: o de "objeto perdido". Quando perdemos algo que amávamos, precisamos de tempo para processar a ausência antes de investir afeto no presente.
Isso vale para o filho imaginado. Pais que não fizeram esse luto às vezes tratam o filho real como uma versão deficiente do filho que deveriam ter tido. Inconscientemente, mas o filho real percebe.
O filho imaginado existiu com clareza quase real. Quando percebemos que não virá, a dor é genuína.
O problema não é sentir essa dor. É quando ela permanece não reconhecida, disfarçada de cobrança, de comparação, de crítica constante ao filho real.
Reconhecer o luto é o primeiro passo para libertar o filho da tarefa impossível de ser quem você sonhou que ele seria. A boa notícia: reconhecer o processo já abre uma fresta. E é por frestas que a luz entra.
- Que filho eu imaginei ter?
- Em que ele difere do filho que tenho?
- O que ainda não aceitei dessa diferença?