PRAUS
P R A U S
Força sob controle
Revista de Parentalidade · Junho 2026
Edição Junho 2026

Quando ele para de falar,
você ainda sabe
o que ele precisa?

Cinco conversas sobre parentalidade, adolescência e o que acontece quando a porta se fecha e a conexão precisa ser reconstruída.

Herivelto Ibrain
01O luto do filho imaginado
02A linguagem do conflito
03Autoridade e amor
04Quando pedir ajuda
05O que você aprendeu sendo filho
Carta do Editor
Quando a porta se fecha,
algo começa.

Pais e mães costumam me dizer que sentiram a adolescência como uma invasão. De um dia para o outro, o filho que dormia abraçado tornou-se um estranho que mal olha nos olhos.

Depois de mais de vinte anos de escuta, aprendi a ver de outro ângulo: a porta fechada não é rejeição. É uma declaração de que algo novo está nascendo ali dentro.

Esta revista foi feita para o momento em que você percebe que as ferramentas que funcionavam com a criança não alcançam mais o adolescente. Não porque você falhou, mas porque ele cresceu. E você também pode crescer junto.

Que estas páginas sejam uma companhia nesse caminho.

Herivelto Ibrain Psicanalista · Terapeuta · Mais de 20 anos de escuta pastoral e acolhimento emocional
01
Artigo I

O luto do filho imaginado

O que fazemos quando ele não é quem esperávamos

Todo pai e toda mãe começa a construir o filho antes de ele existir. Essa imagem é tecida com fios de esperança, memória, medo e desejo, às vezes desde muito antes da gestação.

Quando o filho real nasce e cresce, ele inevitavelmente diverge dessa imagem. A maioria dos pais administra bem essas pequenas divergências. Mas quando a diferença é grande, ou quando a adolescência a torna visível de golpe, algo que poucos nomeiam acontece: um luto.

Luto do filho que seria atleta. Do filho que herdaria o negócio. Do filho que se tornaria próximo, parceiro de conversas profundas. Esses filhos imaginados existiram na mente dos pais com clareza quase real, e quando percebem que não vão acontecer, a dor é genuína.

01O luto não reconhecido vira cobrança
02Cobrança repetida vira distância
03Distância vira porta fechada

A psicanálise oferece um conceito útil aqui: o de "objeto perdido". Quando perdemos algo que amávamos, precisamos de tempo para processar a ausência antes de investir afeto no presente.

Isso vale para o filho imaginado. Pais que não fizeram esse luto às vezes tratam o filho real como uma versão deficiente do filho que deveriam ter tido. Inconscientemente, mas o filho real percebe.

O filho imaginado existiu com clareza quase real. Quando percebemos que não virá, a dor é genuína.

O problema não é sentir essa dor. É quando ela permanece não reconhecida, disfarçada de cobrança, de comparação, de crítica constante ao filho real.

Reconhecer o luto é o primeiro passo para libertar o filho da tarefa impossível de ser quem você sonhou que ele seria. A boa notícia: reconhecer o processo já abre uma fresta. E é por frestas que a luz entra.

Perguntas para reflexão
  • Que filho eu imaginei ter?
  • Em que ele difere do filho que tenho?
  • O que ainda não aceitei dessa diferença?
02
Artigo II

A linguagem do conflito

Por que brigas com adolescentes são, muitas vezes, pedidos de presença

O conflito com adolescentes tem uma gramática própria. Quem não conhece essa gramática responde ao conteúdo literal da briga, e perde o que está sendo pedido nas entrelinhas.

Responder ao conteúdo literal da briga é perder o que está sendo pedido nas entrelinhas.
O que o adolescente diz
"Você não me entende"
"Não preciso de ninguém"
"Odeio essa casa"
"Tanto faz"
"Sai do meu quarto"
"Você não sabe nada"
O que ele está pedindo
Preciso ser visto de um jeito novo
Tenho medo de precisar e ser decepcionado
Estou sofrendo e não sei nomear
Me importo, mas tenho medo de mostrar
Preciso de espaço, não de abandono
Você parou de me perguntar

Isso não significa que o adolescente sempre tem razão, ou que os pais devam engolir qualquer comportamento. Significa que o conflito tem duas camadas, e a de baixo costuma ser mais importante que a de cima.

O adolescente em conflito não está pedindo para vencer. Está pedindo para ser conhecido. Pais que separam a forma do conteúdo, que aguentam o barulho da frase para ouvir o que está embaixo, descobrem um filho surpreendentemente acessível.

Pais que aprendem a fazer uma pausa antes de responder, e a perguntar "o que está acontecendo de verdade aqui?", relatam mudança real na relação.

03
Artigo III

Autoridade e amor não são opostos

Como ser referência sem se tornar uma ameaça

Autoritarismo Obediência por medo. Funciona enquanto a criança é pequena. Quebra na adolescência.
Permissividade Ausência de limites por medo do conflito. Deixa o adolescente sem bússola.
Autoridade Presença consistente com limites claros e calor humano. O ponto de equilíbrio.

Uma das confusões mais comuns hoje é achar que autoridade e afeto são incompatíveis. Que estabelecer limites significa ser frio. Que ser amoroso significa ceder sempre.

A pesquisa em desenvolvimento humano aponta o contrário. O estilo que produz melhores resultados em bem-estar e saúde mental combina calor emocional com estrutura consistente, a parentalidade autoritativa descrita por Diana Baumrind.

Limites sem afeto são prisão. Afeto sem limites é abandono disfarçado de amor.

O adolescente testa os limites não porque quer destruí-los, mas porque precisa saber se são reais. Um limite que cede sob pressão não é um limite, é uma sugestão.

Ser referência não significa ter razão em tudo. Significa ser a pessoa que o filho sabe que vai continuar lá, mesmo depois da briga, mesmo quando ele diz que te odeia, mesmo quando fecha a porta. A constância é a forma mais profunda de amor na adolescência.

Marcadores de uma autoridade saudável
  • Explica o motivo dos limites
  • Mantém o que diz, mesmo sob pressão
  • Distingue comportamento de identidade
  • Repara quando erra
  • Permanece presente após o conflito
  • Admite quando não sabe
04
Artigo IV

Quando pedir ajuda profissional

Sinais que merecem atenção e como dar esse passo

Uma das perguntas que mais ouço é: "Como saber se o que meu filho vive é normal da adolescência ou algo que precisa de atenção profissional?"

A resposta honesta: essa distinção é difícil, e a própria dúvida já é sinal suficiente para buscar avaliação. Não existe consulta desnecessária quando se trata de saúde mental.

Sinais que pedem atenção imediata
Falas sobre se machucar ou desaparecer
Isolamento total por mais de duas semanas
Mudança abrupta de comportamento sem explicação
Alterações persistentes de sono ou apetite
Uso de substâncias confirmado ou suspeito
Sinais que merecem avaliação
Queda significativa no desempenho escolar
Perda de interesse no que antes gostava
Irritabilidade constante e intensa
Relatos de sentir-se diferente de todos
Conflitos frequentes com todos os adultos

Pedir ajuda profissional não é admitir fracasso. É o oposto: ser adulto o suficiente para reconhecer os limites do que se consegue sozinho.

Muitos pais resistem porque temem o que o terapeuta "vai descobrir", sobre o filho, sobre eles. Mas a clínica não é um tribunal. É um espaço onde algo novo pode começar.

Pedir ajuda não é admitir fracasso. É reconhecer os próprios limites.

Uma sugestão prática: antes de marcar consulta para o filho, considere uma consulta para você mesmo. Entender a sua própria relação com a adolescência pode ser o movimento mais transformador pela família.

05
Artigo V

O que você aprendeu sendo filho

A parentalidade que vivemos tende a repetir a que recebemos

Ninguém começa a ser pai ou mãe do zero. Chegamos à parentalidade carregando tudo que vivemos como filhos, os afetos que recebemos e os que nos foram negados.

E repetimos. Com uma frequência que surpreende até quem passou anos em análise.

Isso não é fatalidade, é ponto de partida. O que foi recebido inconscientemente pode ser revisado conscientemente. Mas só depois de ser reconhecido.

A pergunta mais fértil não é "o que meus pais fizeram de errado?", e sim: "O que aprendi sobre amor, limite, presença e distância que ainda está ativo em mim?"

O que foi recebido inconscientemente pode ser revisado conscientemente. Mas só depois de reconhecido.

A transmissão entre gerações não opera por má intenção. Opera por automatismo. Sob estresse, e a adolescência dos filhos é uma das maiores fontes de estresse para os pais, recorremos ao que foi gravado mais cedo.

A boa notícia: a consciência muda o automatismo. Não o elimina, mas cria uma pausa. E é nessa pausa que a escolha se torna possível. Pais que trabalham sua própria história oferecem aos filhos algo precioso: a chance de ser diferentes do roteiro herdado.

Perguntas para se fazer em silêncio
  • Como meus pais respondiam ao meu choro quando eu era pequeno?
  • O que aprendi sobre conflito na minha família de origem?
  • Quando eu ficava com raiva, era ouvido ou punido?
  • Havia espaço para eu ser diferente do que esperavam de mim?
+
Psicanálise & Terapia

O que você não sabe sobre si mesmo

está governando cada escolha que você faz

Existe uma frase que resume décadas de clínica: o ser humano não é governado pelo que sabe de si, mas pelo que desconhece.

A psicanálise não é uma conversa sobre o passado. É uma arqueologia do presente. Cada padrão que se repete, cada relacionamento que termina da mesma forma, cada reação que parece desproporcional, tudo tem uma lógica. Essa lógica tem nome, tem origem. Esse endereço é o inconsciente.

O que a psicanálise estuda
  • As formações do inconsciente: sonhos, atos falhos, sintomas
  • A repetição compulsiva de padrões relacionais e afetivos
  • O vínculo entre experiências da infância e escolhas adultas

Terapia não é para quem está "mal". É para quem está cansado de repetir as mesmas histórias com rostos diferentes. Para quem sente que há algo entre o que quer e o que consegue, e não sabe nomear o que é.

O processo terapêutico cria aquilo que poucas relações conseguem oferecer: um espaço onde você pode ser ouvido sem ser julgado, contradito sem ser atacado, confrontado sem ser abandonado.

1
Por que eu sempre escolho as mesmas pessoas?
Porque escolhemos pelo que nos é familiar, não pelo que nos faz bem. Reconhecemos amor pelos padrões que aprendemos antes de entender o que era amor.
2
Por que eu sei o que preciso mudar e não consigo?
Porque a mudança de comportamento sem mudança de crença é temporária. O inconsciente protege exatamente o que o consciente não suporta ver.
3
Por que certas coisas me afetam tanto mais do que deveriam?
Porque toda reação desproporcional tem uma história proporcional. A intensidade da emoção aponta para onde está a ferida.
Você não repete porque é fraco. Repete porque ainda não viu o que está te prendendo.

A análise comportamental complementa esse trabalho: enquanto a psicanálise ilumina a origem, ela oferece ferramentas para intervir no presente. São abordagens que se completam.

Você não precisa entender
tudo sozinho.

É para isso que a terapia existe. Um espaço onde você pode ser ouvido sem ser julgado, contradito sem ser atacado, confrontado sem ser abandonado.